De Cara Com A Morte Parte I #BATNF02

Tudo começou com a ideia de ir ao lugar mais distante possível na cidade, o Parque Mangabeiras. Não sei quem foi mais idiota, a pessoa que o sugeriu ou o restante que, sem restrições alguma, aceitou. É importante deixar bem claro logo cedo que o índice pluviométrico de Belo Horizonte nas últimas semanas parece um senhor impotente que teve overdose de viagra e após um longo período de seca, se elevou e não desceu mais. Ignorando esse fato e toda a sabedoria que nossos respectivos pais nos passaram a respeito de chuvas, o universo e tudo mais, achamos que era um ótimo programa e marcamos logo para o dia seguinte. Pouco sabíamos do que nos esperava…

Era quarta-feira e eu acordo com meu celular tocando. Lenahas me ligava freneticamente, pela segunda ou terceira vez. Dei um salto da cama e chequei as horas: onze horas da manhã. Segundo nosso plano eu deveria estar pegando o primeiro ônibus junto com o Danibói. Entretanto, eu não havia removido minha samba-canção nem o ressecamento do líquido que compõe a lágrima, formada durante o sono, quando as lágrimas se acumulam nos cantos dos olhos fechados – ou se vocês preferirem: remelas. Atendi a chamada e era a minha namorada, Carminha, dizendo que ELAS JÁ ESTAVAM LÁ. Ainda que no fundo eu soubesse que era uma brincadeira, sem graça aliás, tomei um susto. Desesperado, tentei fazer com que ela desmentisse, mas insistiu na pegadinha até que eu entrasse no MSN, depois dela desligar na minha cara e rejeitado as mil ligações que fiz nos segundos seguintes, e encontrasse ela online.

z. Werneck diz: piadista

Lenahas diz: olá z.Werneck, aqui é a Luiza mãe da Lena, as meninas deram uma saidinha.

Novamente, ainda que eu soubesse que era mais uma zueira delas, dei um suspiro de alívio por não ter enviado o que eu realmente estava pensando: “filhadaputa desgraçada não faz isso de novo senão eu te mato a gente tinha marcado de pegar onibus as 11h e nao de estar lá as 11h vai se fuder vc ainda fala como se a culpa fosse minha seu excreto de ornitorrinco!”. Esperei alguns minutos calado, já que nesse caso o silêncio é a maior arma, e elas então se revelaram.

Com um bom tempo de atraso, saí de casa pra encontrar com o Danibói na UFMG. Fazia dez minutos que eu tinha chegado e ele, que havia saído antes de mim, não estava lá ainda. Liguei eufórico e despejei meus xingamentos antes mesmo dele ter direito de dar a sua desculpa esfarrapada de que estava perdido. O ônibus em que ele se encontrava se dirigia para o sentido oposto de onde eu estava. Como sempre, fui eu quem teve que tomar a atitude sensata. Disse para que ele fosse direto para o nosso segundo ponto de encontro: a Avenida Afonso Pena. Lá, encontraríamos também as meninas e tomaríamos o último ônibus (de ida) do dia. Apesar de parecer simples, significava que eu teria que atravessar uma das avenidas mais movimentadas da cidade, a Antônio Carlos, e depois pegar um ônibus lotado com uma mochila cheia e dois skates na mão. Talvez esse fosse o primeiro e mais evidente sinal de que eu deveria desistir antes de que fosse tarde demais, mas eu persisti no erro.

Já reunido com todos, Carminha, Lenahas e Danibói, fomos em busca do ponto onde estaria a Mercedes que nos levaria para o Parque Mangabeiras, vulgarmente conhecida como ônibus, busão, ômbus e, para os mais íntimos: 4108.  Possivelmente por nossa aparência de turista inocente – cheios de bugigangas nas mãos e andando dispersamente pelo centro da cidade -, ao atravessarmos metade da avenida, um pivete abordou-nos, mais especificamente o Danibói. Ele, que estava com o celular na mão exposto de uma maneira que só faltava ter uma daquelas placas brilhantes com uma setinha dizendo: CELULAR CARO AQUI, direcionou-se ao menino. Eu, bom amigo que sou, acompanhei-o. As meninas, por outro lado, afastaram-se. Mesmo que a princípio ele só estivesse pedindo cinquenta centavos, de forma honesta e piedosa, foi um movimento muito sagaz delas. Danibói que não escutara direito o que o pobre garoto tinha dito, questionou-o. De uma forma ríspida ele pediu cinquenta centavos. Embora eu logo percebi do que se tratava, pelo modo como a situação se desenrolou, Danibói, um garoto tolo, prosseguiu na sua atitude de bom coração. Foi ainda mais tolo e, com todo o sossego tirou A CARTEIRA do bolso. Começou a catar umas moedinhas e o jovem, que era pequeno, do meu tamanho, mas forte, desdentado e MUITO FEIO, de um jeito amedrontador, reclamou:

“ô tio, passa o dinheiro logo!!”

- Calma amigo, to pegando aqui…
- Eu quero é nota fi, passa logo ai!!
- Ííí, tenho nota aqui não cara, pode olhar. Só tenho o cartão de ônibus aqui – e retirou o cartão de ônibus dele que continha um crédito de QUINHENTOS REIAS. Desculpa cara, mas eu vou ter que falar: DANIBÓI VOCÊ É MUITO BURRO!

É nessa hora que eu agradeço ao sistema de educação pública do Brasil por ser tão horrível. O menino foi ainda mais estúpido e recusou o cartão, dizendo que o que queria mesmo era “nota”. Ao ser refutado pela segunda vez, retirou a mão direita que estava dentro da camisa desde o começo e com ela, uma garrafa de cerveja quebrada com uma ponta enorme, capaz de perfurar minha barriga e sair do outro lado. Ficou tão visível o medo de Danibói que por pouco não se via ele literalmente segurando nas mãos um ânus.

Cu na mão

Ele reafirmou que não tinha nota nenhuma, contudo carregasse uma fortuna, e aí cometeu a primeira filhadaputisse e trairagem dele:

- Caaaara, eu já disse! Não tenho nota aqui não, só tenho essas moedinhas que eu te dei. VOCÊ TEM ALGUMA COISA AI WERNECK??? – jogou o pequeno meliante para o amigo.
- Cara, num tenho nada aqui – ironicamente disse, já que carregava um iphone 4 no bolso e igualmente um bom dinheiro na carteira.

A arma foi apontada para mim. Ela me encarava e eu a encarava. Analisei-a e estremeci. Tudo isso em uma fração de segundo. Danibói, vendo que o problema não era mais com ele, aproveitou que Lenahas aproximou-se e puxou seu braço, e cometeu a segunda e maior filhadaputisse e trairagem dele: me deixou a sós com o ladarãozinho feioso. Eu que o acompanhei e apoiei, mesmo quando poderia simplesmente ter fingido que não era comigo e deixado-o se foder sozinho. Estufando o peito e exibindo intransigência na negociação, deixando parecer que seria sua última oferta antes de fazer com que a ponta da garrafa dele conhecesse o meu fígado, atravessasse-o e saísse do meu corpo dando as costas num ar triunfal, o pivete exigiu:

- Quero o skate então!

Quase dando uma risadinha, com uma voz leve e humorada, as minhas únicas palavras foram:

- NEM FUDENDO!

Fechei os olhos rapidamente, quase piscando, esperando pelo golpe certeiro e quando reabri, a surpresa: como se nada tivesse acontecido, enxerguei o pobre coitado andando para o outro lado. Virei e me encaminhei aos meus supostos “amigos” que me deixaram a um triz da morte sem mexer um dedo para me ajudar. Eles agindo como se tivessem me dado algum suporte, me acompanharam e atravessamos o resto da rua.

Do outro lado, pensei em duas coisas. A primeira, é que eu de uma maneira ou de outra, mudara a vida daquele menino. Não importa se foi para melhor, mostrando que quando ele pediu o dinheiro na honestidade ele recebeu, tirando-o da vida do crime. Ou para pior, já que sem o dinheiro do roubo talvez ele não conseguirá se alimentar e acabará morrendo em alguns dias. A segunda coisa que pensei foi dar um tchauzinho amigável para ele. Não o fiz porque, além de não ter encontrado-o, tive que correr para não perder o ônibus.

A caminho do Parque, percebia-se a movimentação das nuvens e o escurecimento do céu na região. Simulamos que nada acontecia, não queríamos estragar o plano antes mesmo de começa-lo. Não que tenha adiantado muito. Não completaram dez minutos desde que chegamos no Parque, nos encaminhado para pista de skata para andar pelo menos alguns minutos, e o céu despencou-se sobre nós. Sem saber se eu salvava a mim mesmo, meu skate ou a chapinha da minha namorada, deixei  com as meninas o guarda-chuva que sabiamente minha vó me recomendou levar, e sai correndo com dois skates na mão para o primeiro ponto seguro de água.

4 Respostas to “De Cara Com A Morte Parte I #BATNF02”


  1. 1 Dani (@daanisz) Janeiro 7, 2012 ás 5:38 pm

    “Ele, que estava com o celular na mão exposto de uma maneira que só faltava ter uma daquelas plaquinhas brilhantes com uma setinha dizendo: CELULAR CARO AQUI” TINHA QUE SER O DANIEL KKKKKKKKKK

  2. 2 Luiza Janeiro 7, 2012 ás 5:46 pm

    “filhadaputa desgraçada não faz isso de novo senão eu te mato a gente tinha marcado de pegar onibus as 11h e nao de estar lá as 11h vai se fuder vc ainda fala como se a culpa fosse minha seu excreto de ornitorrinco!”.
    Bom saber.

  3. 3 Luiza Janeiro 7, 2012 ás 5:47 pm

    E DEPOIS QUE A LENAHAS ME PUXOU EU FUI PRO SEU LADO TÁ!!

  4. 4 Breno Janeiro 9, 2012 ás 2:01 am

    hauehuaehheuahu O Daniel sempre fodendo tudo!


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